quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Qual a diferença entre o capricho e o amor verdadeiro?




"SALOMÉ.
Tu não quiseste que eu beijasse tua boca, Iokanaan. Pois vou beijá-la agora! Hei de mordê-la com os meus dentes como se morde um fruto verde. Vou beijar a tua boca, Iokanaan! Não te tinha dito? Não te disse? Vou beijá-la agora. Mas por que não me olhas, Iokanaan? Os teus olhos terríveis, cheios de raiva e desprezo cerraram-se. Por que fechaste teus olhos? Abre-os, abre os olhos, descerra as pálpebras, Iokanaan! Porque não me olhas? Terás medo de mim?... A tua língua, que parecia uma serpe rubra secretando veneno, não se move mais; e nem mais uma palavra diz, Iokanaan, essa víbora vermelha que tanto veneno trazia! Estranho, não é? Como está agora a serpe rubra que não se move mais? Não me quiseste, Iokanaan. Desprezaste-me. Disseste-me más palavras. Disseste bem junto a mim, que eu era lascívia e a baixeza; a mim, Salomé, filha de Herodias, princesa da Judéia! Eu estou viva e tu morto! Pertence-me a tua cabeça. Posso fazer dela o que quiser, dá-la aos cães e às aves do ar. Quando os cães estiverem fartos, as aves acabarão de devorá-la... Ah! Iokanaan! Iokanaan! Foste tu o único homem que eu amei. A todos sempre odiei e só por ti tive amor porque eras belo! Teu corpo lembrava uma coluna de marfim cuja base fosse prata, um jardim cheio de pombos e de lírios argênteos, uma torre coberta de broquéis ebúrneos. Não havia no mundo na mais branco que o teu corpo, nada mais negro que os teus cabelos, nada mais vermelho que a tua boca. Da tua voz se desprendiam perfumes de estranhos incensários e quando em ti meus olhos repousavam era como se ouvisse uma estranha música. Ah! porque não me olhaste, Iokanaan? Ocultavas, com as costas das mãos e a capa das blasfêmias, a face; punhas uma venda nos teus olhos como aqueles que só querem ver seu próprio Deus...Viste Deus, Iokanaan, mas não me verás jamais, e se me tivesse visto, amar-me-ias decerto! Vi-te e amei-te. Oh! como te amei! Amo-te loucamente ainda, Iokanaan, a ti só... Tenho sede da tua beleza, tenho fome do teu corpo e nem o vinho nem os frutos podem desalterar ou acalmar o meu desejo! Que farei agora, Iokanaan? Nem as ondas do mar nem as águas da terra podem apagar esta chama... Era uma princesa, e desprezaste-me; era virgem e tomaste minha virgindade; era casta, e lançaste-me nas veias o fogo do amor... Ah! Ah! porque não me olhaste? Ter-me-ias decerto amado! Bem sei que terias me querido... O mistério do Amor é muito maior que o mistério da Morte."


"A única diferença entre o capricho e o amor verdadeiro é que o capricho dura um pouco mais..."

WILDE, Oscar - Salomé. São Paulo. Martin Claret Ltda., 2003.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

rascunhos



tudo começa com uma simples emoção
papel e caneta são encontrados
e os sentimentos transbordam através das palavras


carinho, tristeza
desejo, solidão
não importa, tudo flui nas pequenas letras que escrevo


por vezes duras, por vezes suaves
não penso,  é como se a caneta tivesse movimentos próprios
dançando no papel e demonstrando tudo o que não consigo transmitir


não sei se é seguro expressar o que sinto
não sei o que me é permitido nesse jogo de palavras
não sei o que pode ser manifestado nesse turbilhão de sentimentos


só sei que elas procuraram seu lugar 
fora de minha mente e de meu coração
então, eis o seu destino!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Vitoriosa




Quero sua risada mais gostosa
Esse seu jeito de achar
Que a vida pode ser maravilhosa
Quero sua alegria escandalosa
Vitoriosa por não ter
Vergonha de aprender como se goza
Quero toda sua pouca castidade
Quero toda sua louca liberdade
Quero toda essa vontade
De passar dos seus limites
E ir além, e ir além.


- x -

depois de encontros, desencontros e reencontros...
1 MÊS de pura felicidade contigo.

E se a cada dia eu conseguir te arrancar um sorriso desses ou te fazer feliz metade do que você me faz, eu tou satisfeita.

Eu merdo você!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011



"[...] deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não apenas diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor [...], mas pelo desejo do sono compartilhado."


Milan Kundera, "A insustentável leveza do ser", pág 20.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

nuvens escuras



Olhares falam muita coisa
Um amor, um ódio, um desejo
Basta um olhar pra seu dia ter um início ou um fim


Um olhar pode ferir outrem
que não é quem olha
nem quem é olhado


Basta  um olhar e tudo muda
Um sorriso se transforma numa lágrima
Uma alegria torna-se tristeza


Basta um olhar errado
Basta um brincadeira que envolva olhares
Basta você olhá-la
Que meu coração se despedaça


E hoje, por um olhar...
Pelo teu olhar pra ela
Meu dia feliz, obscureceu.
E só há nuvens escuras no meu céu.


-
ciumes, em 10/12/2011

ciumes...




o que mais importuna
é o ciúme motivado
aquele que realmente
sai de algum lugar


"Perdoa, amor
se eu não posso ser
se ela é muito mais"


sempre acertei,
e não é hoje que erro
ela quer estar contigo
e a decisão só cabe a você.


-
em 08/12/2011

à espera...



é fácil entender o amor quando o estamos vivendo
platônico, carinhoso, atencioso
sempre pensei que era utopia
até chegar você


verdadeiramente, estava esperando o homem perfeito
mas você chegou primeiro
e me mostrou que o que eu esperava era pouco
muito pouco.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Namore uma garota que lê.



Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.
Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.
Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criador pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.
Compre para ela outra xícara de café.
Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.
É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.
Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.
Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.
Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.
Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.
Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.
Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.
Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.

Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico
Tradução e adaptação – Gabriela Ventura

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

sina nossa.



Mia senhora,
És de lua e beleza
És um pranto do avesso
És um anjo em verso
Em presença e peso
Atrevo-me atravesso
Pra perto do peito teu

Teu sagrado e tua besteira
Teu cuidado e tua maneira
De descordar da dor
De descobrir abrigo
Entre tanto amor
Entretanto a dúvida
A música que casou
Um certo surto que não veio

Há uma alma em mim,
Há uma calma que não condiz...
Com a nossa pressa!
Com resto que nos resta
Lamentavelmente eu sou assim...

Um tanto disperso
Às vezes desapareço
Pois depois recomeço
Mas antes me esqueço

Nossa sina é se ensinar...
A sina nossa é...
Nossa sina é se ensinar...
A sina nossa...

Minha senhora diz:
Bons ventos para nós
Para assim sempre
Soprar sobre nós...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

infantilmente



ela tinha esse jeito doce e infantil de ser,
uma leveza e uma pureza ímpar...
uma alegria infantil estampada no sorriso,
uma tristeza infantil que clamava por socorro


e um amor idealizado infantilmente
com direito a cores, flores e abraços apertados
com direito a príncipes, bruxas e sapos
com direito a jujubas, sorvetes e chocolates


ela sabia que essa era sua melhor parte
mas sabia que não poderia sair demonstrando-a para o mundo
isso seria ridiculamente estúpido
até que, de repente, ele chegou


ele chegou e a fez perceber que com ele, ela poderia ser apenas ela mesmo.
com toda sua bobagem e bagagem.
com toda sua vontade de mostrar-se exatamente como ela é
com toda sua coragem de perguntar 'essa sou eu, você me aceita?'


e assim, eles viveram um amor infantilmente esplêndido
um amor que há muito era esperado por ambos.
eles podiam ser cada um e os dois ao mesmo tempo,
podiam se amar sem falsas verdades.


e como diria nos contos infantis que ela adorava vivenciar:
eles foram felizes para sempre...
e sempre...
e além do sempre.

em busca da outra metade...



De acordo com a mitologia grega, os seres humanos foram criados originalmente com quatro pernas, quatro braços e com duas faces. Temendo o seu poder, Zeus os separarou, condenando-os a gastar suas vidas em busca de sua outra metade.


- x -


E eis que ela não mais necessitava de uma metade
Ela já se sentia completa, viva
Ele não era 'apenas mais um'
Ele era 'O' escolhido por ela
E a única certeza que ela tinha
Era que no dia seguinte, o escolheria outra vez!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

tentação.


tuas mãos percorrendo todo meu corpo
teu hálito suave me preenchendo a cada instante
teus lábios desvendando-me até o âmago
teu corpo sobre o meu corpo


nada mais importa
apenas a vontade de não mais resistir à tentação
e a sólita emoção de sentir-me tua
apenas e sempre tua

Neruda, Neruda, Neruda...




Quero apenas cinco coisas
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos 
Não quero dormir sem teus olhos. 
Não quero ser... sem que me olhes. 
Abro mão da primavera para que continues me olhando.


[Pablo Neruda]